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icone de categorias Notícias icone de data de publicação 17 de abril de 2012.

Automedicação nas corporações

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Valor Economico

Hipocondríaco, mas um pouco relapso. Estressado e com doenças associadas ao estilo de vida moderno. Esse foi o principal diagnóstico observado na pesquisa feita pela empresa ePharma, a pedido do Valor, sobre o perfil de consumo de medicamentos por executivos e funcionários de grandes corporações do país, como siderúrgicas, petroleiras, mineradoras, construtoras, usinas, companhias telefônicas e prestadoras de serviços, que utilizam plano de saúde e têm cartão de subsídio para compra de remédios administrada pela companhia. O universo pesquisado foi de 220 mil pessoas dos quase 1 milhão de vidas do mundo corporativo atendido pela ePharma.

O comportamento desse universo corporativo não foge muito à regra geral da população brasileira, no qual a automedicação para combater uma simples dor de cabeça, por exemplo, faz parte da cultura do país, e a crescente substituição de medicamentos de referência por genéricos reforça uma tendência global de mercado.

O que mais surpreende nessa pesquisa é o consumo inadequado de alguns importantes medicamentos cuja prescrição médica é obrigatória, casos do Rivotril (antidepressivo), Viagra (combate à disfunção erétil), e de antibióticos. Além disso, os dados compilados pela ePharma mostram o alto índice de desistência, sobretudo por parte dos homens, em dar prosseguimento a importantes tratamentos médicos.

A ePharma elabora relatórios mensais que são repassados aos seus clientes para que as corporações possam desenvolver políticas de prevenção de saúde a seus beneficiários, segundo Luiz Carlos Silveira Monteiro, presidente da companhia.

Os dados da pesquisa mostram que as mulheres são as que mais utilizam o sistema (57%). As faixas etárias que mais usam são dos 18 aos 29 anos e dos 30 a 39 anos, respectivamente.

O alto consumo de Rivotril, o oitavo item dos medicamentos mais comprados com receita obrigatória (em 2010 era o primeiro e em 2009 era o nono), é considerado um dos mais emblemáticos na pesquisa. A droga, desenvolvida pela farmacêutica suíça Roche, nos anos 70, para tratar de convulsões, está entre os dez principais remédios de prescrição consumidos por esse perfil de usuários nos últimos três anos. O curioso é que nos últimos 30 anos uma nova classe de produtos dessa linha de tratamento foi lançada, mas esse produto continua entre os mais prescritos.

"O Rivotril é um dos remédios mais vendidos no Brasil, muito mais que analgésicos e antibióticos", afirmou ao Valor o médico Marcelo Feijó de Mello, professor adjunto do Departamento de Psiquiatria da Universidade Paulista de Medicina (Unifesp). O uso desse medicamento, segundo levantamento do ePharma, é feito na maioria das vezes por mulheres da faixa etária 4 (de 40 a 49 anos).
Mello explicou que esse remédio é coadjuvante em tratamento e não a primeira escolha de um médico especialista. "Mas como o Rivotril tem efeito imediato e baixa a ansiedade, é receitado por uma classe médica, que não é a especializada, como ginecologistas e clínicos gerais, por exemplo", disse.

Ao Valor, o presidente da Roche no Brasil, Adriano Treve, afirmou que o Rivotril é um fenômeno de vendas no país, mas quase nada é comercializado em outros países. "A Roche não investe nada para promover o Rivotril no país", disse. Em 2011, as vendas de Rivotril (clonazepam) atingiram 14 milhões de caixas. Os principais concorrentes do produto são os genéricos de clonazepam, comercializados a preços 35% mais baixos se comparados ao produto de referência. Nos últimos três anos, as vendas da versão genérica do medicamento, da classe das benzodiazepinas, cresceram 24,3%. Hipertensão e doenças cardíacas atingem cerca de 15% dos funcionários corporativos

Outro fato curioso é o uso de Viagra e seus genéricos por homens entre 30 e 39 anos. O remédio não está entre os dez mais vendidos, mas faz barulho. O consumo desse produto deveria ser feito por pessoas acima de 60 anos. Segundo Sidney Glina, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, há três grupos que consomem medicamentos de combate à disfunção erétil: os que realmente precisam, os que buscam turbinar a relação sexual, geralmente na faixa dos 30 anos, e os que são inseguros. "Esse último grupo está na faixa dos 18 anos a 20 anos, que tem medo de não conseguir ter bom desempenho."
Segundo ele, o problema de tomar esse remédio sem precisar é o risco psicológico.

Na lista dos dez medicamentos com receita obrigatória os antibióticos genéricos reinam. O consumo inadequado dessa classe é que se pode criar resistência a antibióticos, observou Múcio de Oliveira, diretor da unidade de emergência do Incor (Instituto do Coração). "Conforme vai criando resistência, o paciente vai ter que tomar drogas mais potentes." O mesmo vale para automedicação. "É o mesmo que comprar uma peça para carro sem consultar o mecânico."

De acordo com Pedro de Oliveira, diretor-médico da ePharma, o alto índice de descontinuidade de tratamento observado pela pesquisa também é preocupante. "Cerca de 30% dos que desistem têm doenças consideradas graves." Segundo Oliveira, os homens são os que mais tendem a abandonar o tratamento.

Homens são os mais propensos a desistir em dar prosseguimento a importantes tratamentos médicos

Essa postura relapsa tem explicação: "Faz parte da cultura feminina se tratar, do homem não. Depois que deixam de ir ao pediatra, eles acham que não precisam se cuidar. Procurar ajuda médica na linguagem masculina é visto como fraqueza. Ele não quer ter nada, então abandona", disse Múcio de Oliveira, do Incor, especialista em hipertensão. "Após os 40 anos, voltam para fazer acompanhamento de próstata e hipertensão."

As terapias hormonais e de distúrbios emocionais são as de mais demandas por esse grupo de usuários do mundo corporativo, nas quais predominam o público feminino, seguidas pelas de cardiopatias e anti-hipertensivas. "Cerca de 15% da população tem algum problema cardiovascular e hipertensivo. E no caso da hipertensão a causa nunca é uma só. Além da predisposição genética, a doença está associada à alimentação rica em sódio, obesidade, ambiente estressante, sedentarismo e diabetes", lembra Múcio de Oliveira.

No ranking dos remédios isentos de receita, os analgésicos genéricos para aliviar dores lideram, o que indica um comportamento de automedicação. Os de prescrição médica também são, na maioria, genéricos. A substituição de medicamentos de referência por genéricos não é visto como um problema por especialistas. "Nossa orientação é para dar preferência a laboratórios conhecidos, que preservem a qualidade e que sejam auditados pela Anvisa [Agência de Vigilância Sanitária]", afirmou Décio Mion, chefe de hipertensão do Hospital das Clínicas.

Com essas informações em seu banco de dados, a ePharma pode traçar perfil de comportamento para cada corporação. Líder de mercado, a ePharma é uma empresa de Gerenciamento de Benefícios de Medicamentos (GBM), modelo muito comum nos EUA. Esse serviço é destinado a empresas e instituições que oferecem acesso à assistência farmacêutica e integra o benefício do medicamento à gestão da saúde de seus beneficiários.

Pelo sistema da ePharma, que atende cerca de 20 milhões de vidas e tem cerca de 60% de seus serviços voltados para rede de farmácia popular, é possível tabular todas as informações dos usuários que usam o cartão de sistema de saúde da companhia. "A empresa tem crescido 25% ao ano de forma consolidada. Ano passado, investimos cerca de R$ 2 milhões em tecnologia, o que nos permite ter os dados em tempo real nas 14 mil farmácias associadas em mais de 500 municípios", disse Monteiro.


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