Biotecnologia é foco para investidores

E pharma

Entre os dez medicamentos com maior faturamento no mundo em 2010, cinco são biotecnológicos. O primeiro dos biológicos vem em quarto lugar na lista, o anti-inflamatório Enbrel, com faturamento de US$ 7,3 bilhões. Em 2016, entre os dez mais vendidos, sete deverão ser biotecnológicos, três deles ocupando os primeiros lugares e somando US$ 25,2 bilhões.

A biotecnologia é a aplicação de técnicas biológicas em organismos vivos, ou suas partes, para obter um produto, processo ou serviço. Inclui tecnologias de manipulação genética que resultem na produção de proteínas com aplicações terapêuticas. Hoje, enquanto no mundo há cerca de 1,2 mil remédios de síntese química, não chegam a 50 os chamados biotecnológicos.

Em 2010, as vendas globais da indústria farmacêutica atingiram US$ 707 bilhões, 18,4% deles em produtos biotecnológicos. Nesse ritmo, acredita-se que em 2016 eles passarão a representar 21% das vendas. Nos EUA, o registro de novos biológicos já representa 44% em 2010, contra 35% em 2002.

Na área de saúde, os investimentos demonstram que a biotecnologia se transformou em sua maior aposta de longo prazo, levando países a implementar políticas industriais ativas na busca pela aproximação da fronteira tecnológica", destacam os autores de três estudos sobre o Complexo Industrial da Saúde realizados para o BNDES. Os números são desses estudos que se baseiam em dados da EvaluatePharma e IMS Health.

Os biosimilares, como estão sendo chamados os "genéricos" biotecnológicos – área que na farmoquímica o país se saiu muito bem -, deve ser o primeiro passo para essa nova tecnologia, especialmente para países no estágio do Brasil. Além de firmar um lugar que perdeu lá atrás na corrida pela síntese química, o país já enfrenta gastos cada vez maiores na área de fármacos biotecnológicos. Levantamento do Ministério da Saúde citado pelo BNDES mostra que de 2003 a 2008 o gasto do SUS com medicamento de alto custo passou de R$ 513 milhões para R$ 2,3 bilhões. Enquanto 41% dos gastos foram com medicamentos biológicos, eles respondem por apenas 2% em volume, "revelando um grupo de altíssimo valor agregado".

Pelo menos oito grandes laboratórios nacionais, associados em duas "big pharmas", já estão a caminho dos biosimilares com a participação do BNDES. "A ideia é juntar as farmas brasileiras para formar uma super-indústria. É um fundo de pesquisa para o desenvolvimento, e o que sair de lá vai ser explorado pelos laboratórios integrantes", diz Gonçalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e superintendente do Hospital Sírio-Libanês. "A biotecnologia ainda está na fronteira do conhecimento. O Brasil tem que se preparar e está caminhando para isso", afirma Vecina.

A biotecnologia vai permitir um estreitamento maior entre os centros de pesquisa e a indústria. "Agora vamos além de testar novas drogas", diz Luiz Fernando Lima Reis, do Instituto Sírio-Libanês de Pesquisa. "Já participamos de três áreas: da seleção de pacientes, com marcadores; dos ensaios clínicos e do desenvolvimento de métodos para acompanhar a resposta do tratamento", explica o diretor.

O laboratório Cristália, que como outros nacionais ganhou impulso na esteira dos genéricos, iniciou já em 2006 uma planta para pesquisa e desenvolvimento em biotecnologia. "Somos a empresa privada nacional pioneira nessa área, e já em julho ou agosto próximo inauguramos a planta de produção", diz Roberto Debom, diretor de parcerias público-privadas e biotecnologia da Cristália. Cerca de R$ 100 milhões já foram investidos nas ampliações e pesquisa e três vezes mais devem ser aplicados nos próximos anos, estima o diretor. Segundo ele, já há várias moléculas de biotecnológicos que aguardam a transposição industrial nas novas instalações. "O país não tem como fugir da biotecnologia se quiser avançar", diz Debom. "Temos que entrar de cabeça nesse negócio", destaca.

As pesquisas das drogas biológicas, pelas perspectivas que trazem na área do câncer, significam também investimento de grande valor. Para receber a designação de Droga Órfão do FDA americano, a Recepta Biopharma – do físico José Fernando Perez – investiu R$ 40 milhões e atraiu como investidores dois grandes empresários: Emilio Odebrecht, do Grupo Odebrecht, e o pecuarista Avelino Mineiro.

Foto de Ascoferj
Ascoferj
A Associação do Comércio Farmacêutico do Estado do Rio de Janeiro (Ascoferj) é uma entidade sem fins lucrativos que atua para defender e preservar os interesses do varejo farmacêutico. No quadro de associados, há farmácias e drogarias independentes, redes de pequeno, médio e grande porte, empresas ligadas ao associativismo e distribuidores de medicamentos e perfumaria. Os associados têm uma série de benefícios e serviços, como assessoria jurídica, cursos de capacitação, consultoria em assuntos regulatórios, descontos e vantagens com parceiros, entre outros. Além disso, a tranquilidade de saber que não se está sozinho, que há com quem contar, principalmente nos momentos de crise. A Ascoferj também atua fortemente junto ao poder público, estreitando relações com o Governo do Estado, prefeituras, deputados, vereadores, secretarias públicas e órgãos reguladores.
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