Farmácias têm até 26 de maio para se adequarem à norma NR-1

Especialista orienta sobre ações que empresas podem desenvolver para cumprir a norma e destaca as penalidades pelo não cumprimento.
Farmácias têm até 26 de maio para se adequarem à norma NR-1
Michelle Pacy, psicoterapeuta com especialização em Hipnose Clínica, destaca benefícios para líderes e colaboradores das farmácias (Foto: Divulgação)

Em 2025, foram mais de 546 mil afastamentos relacionados à saúde mental em todo o Brasil. Esse cenário acendeu um alerta no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que identificou que parte significativa desses adoecimentos estava ligada ao ambiente organizacional. Diante disso, a Norma Regulamentadora (NR-1) tem o objetivo de identificar os fatores de risco psicossociais existentes, reduzir esses casos e aumentar a produtividade dos colaboradores.

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Já a pesquisa Panorama da Saúde Emocional do RH, feita pela Flash com 889 profissionais de Recursos Humanos, apontou que apenas 5% das empresas estão preparadas para atender às exigências da NR1. E isso inclui farmácias.

Em entrevista à Ascoferj, Michelle Pacy, psicoterapeuta com especialização em Hipnose Clínica e sócia da Plenari — uma consultoria especializada na implementação da NR-1 em empresas — comentou que as farmácias têm até maio de 2026 para se adequarem à norma. Ela também revelou quais serão os benefícios para as empresas, bem como as multas, que podem chegar a mais de R$ 181 mil. Leia a entrevista a seguir:

Ascoferj: Michelle, você poderia explicar para a gente o que é a NR-1 e qual é o prazo de adequação?

Michelle: A NR-1 não é uma norma nova. Ela existe desde 1978, quando foi publicada como portaria do MTE. Após a pandemia, houve um aumento expressivo nos afastamentos previdenciários por transtornos como ansiedade, depressão e burnout. Diante disso, em 2024, a NR-1 foi atualizada para incluir de forma específica e obrigatória a avaliação dos riscos psicossociais dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). A norma entra em vigor no dia 26 de maio de 2026, e as empresas, inclusive as farmácias, precisam se adequar para não sofrer penalidades.

Ascoferj:  O que o setor farmacêutico precisa fazer para se adequar à NR-1?

Michelle: A primeira medida é a realização de um diagnóstico de riscos psicossociais. Ele deve ser conduzido de forma sigilosa e estruturada, com perguntas direcionadas aos fatores indicados pelo MTE. No caso das farmácias, é necessário considerar fatores como pressão por metas, atendimento direto ao público, jornadas extensas, responsabilidade técnica e exposição constante a situações de conflito.

A partir dessa identificação, deve ser elaborado um relatório técnico, com dados quantitativos e qualitativos, que identifique os fatores de risco psicossociais existentes. Esse documento passa a integrar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e se torna a base para as ações preventivas e corretivas. Portanto, o diagnóstico não é o fim — é o ponto de partida. Sem ele, qualquer ação será superficial e poderá não atender às exigências legais.

Ascoferj: Como você enxerga a NR-1? A norma trará benefícios para as farmácias e colaboradores?

Michelle: Vejo a norma como um divisor de águas para quem está na linha de frente, atendendo clientes e lidando diariamente com pressão, metas e conflitos. Quando o ambiente passa a considerar os riscos psicossociais de forma estruturada, as pessoas se sentem vistas, mais seguras, calmas, ouvidas e protegidas. Isso gera dois impactos claros: aumento da produtividade e fortalecimento do sentimento de pertencimento. Elas passam a ir ao trabalho mais felizes.

Outro benefício é para os líderes. Hoje, muitos estão apagando incêndios emocionais do time operacional — conflitos com clientes, pressão externa, situações que extrapolam o ambiente técnico da farmácia. Quando a gestão organiza esses riscos, o líder deixa de atuar apenas no emergencial e volta para o estratégico, entendendo seu papel e liderando com clareza, não apenas reagindo ao caos.

Ascoferj: Caso a farmácia não siga a norma, quais serão as penalidades?

Michelle: As penalidades para empresas que não realizarem o diagnóstico de riscos psicossociais e não atualizarem o PGR seguem o fluxo padrão da fiscalização trabalhista. Inicialmente, pode haver notificação para adequação. Hoje, grande parte das informações relacionadas à saúde e segurança do trabalho é integrada a sistemas digitais do governo, como o e-Social, facilitando o cruzamento de dados e a identificação de inconsistências.

Se a empresa permanecer irregular, podem ocorrer autuações e aplicação de multas administrativas. Os valores variam conforme o porte da empresa, o número de empregados e a gravidade da infração, podendo se tornar significativos, especialmente em casos de reincidência. Os valores podem iniciar em R$ 1,8 mil e chegar a R$ 181 mil.

Ascoferj: Qual o papel da comunicação na implantação da NR-1?

Michelle: A comunicação é fundamental, não apenas nas farmácias, mas em qualquer ambiente — familiar, profissional e até pessoal. Grande parte dos problemas dentro das empresas nasce da forma como as informações são transmitidas. Muitas vezes, a pessoa não está organizada emocionalmente e comunica algo no calor da emoção. Na atualização da NR-1, isso é especialmente relevante, pois a comunicação entre líderes e liderados é um dos fatores avaliados no diagnóstico de riscos psicossociais. Não importa apenas o que é dito, mas o que é entendido. Por isso, na implementação da norma, é preciso estruturar um plano de comunicação explicando como o processo será conduzido, o objetivo, como funcionará o sigilo e como os dados serão analisados.

Ascoferj: Para finalizar, que dica você pode dar a uma farmácia que tem dificuldade em reter seus talentos?

Michelle: A primeira dica é coletar dados para entender de qual setor os colaboradores mais saem, quem solicita desligamento e quais são as justificativas recorrentes. Com essas informações, é possível ajustar o ambiente da empresa e agir com precisão. Muitas vezes, o problema não é o salário, mas desalinhamento de perfil com a função, liderança despreparada ou falta de clareza nas expectativas. Quando a farmácia recebe a devolutiva do Diagnóstico de Riscos Psicossociais, com os dados quantitativos e qualitativos obtidos na pesquisa, como o MTE exige, há um caminho claro para corrigir esses pontos. Por isso, ao longo do processo, é percebida a redução de afastamentos, o gasto com turnover diminui, o senso de pertencimento é estabelecido e, com isso, produtividade e lucratividade sobem.

Leia também: Uso de antidepressivos cresce 12,4% entre adultos

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Juan Borges
Juan Borges é jornalista e atua desenvolvendo conteúdos para a Ascoferj e para as redes sociais.
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